domingo, 7 de maio de 2017

Submissão


No dia da vitória de Emmanuel Macron, é de recordar uma passagem de "Submissão", o romance assustadoramente premonitório de Michel Houellebecq:

"A progressão da extrema-direita tornara as coisas um pouco mais interessantes ao trazer para os debates o esquecido calafrio do fascismo; mas só em 2017 é que as coisas começaram verdadeiramente a mexer, com a segunda volta das presidenciais. Siderada, a imprensa internacional assistiu então ao vergonhoso espectáculo, embora aritmeticamente inelutável, da reeleição de um presidente de esquerda num país cada vez mais abertamente de direita. Poucas semanas depois do escrutínio eleitoral, espalhou-se em todo o país uma atmosfera estranha, opressiva, uma espécie de desespero sufocante, profundo, embora aqui e ali atravessado por assomos insurreccionais. Nessa altura, muitos foram os que optaram pelo exílio. Um mês depois dos resultados finais, Mohammed Ben Abbes anunciou a criação da Fraternidade Muçulmana."

sexta-feira, 5 de maio de 2017

A Direita francesa, as eleições presidenciais e Marine Le Pen


Há dois anos entrevistei o Bruno Garschagen, professor de Teoria Política, autor e tradutor, a propósito do seu livro “Pare de acreditar no Governo. Por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado”. Apesar das nossas diferenças, mantivemos o contacto, a amizade e o salutar debate de ideias. Desta vez, a propósito das eleições presidenciais francesas, os papéis inverteram-se e fui eu o entrevistado. Aqui fica a ligação para a entrevista que dei ontem em directo, uma óptima experiência que, assim espero, seja útil à compreensão do que está em jogo no próximo dia 7 de Maio. 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A teoria que dá a vitória a Marine Le Pen

Marine Le Pen

Serge Galam, físico e investigador em Ciência Política no CEVIPOF previu a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais nos EUA e a derrota de Alain Juppé nas primárias da Direita francesa. Agora, segundo noticia o "Le Point" e desenvolve a revista "Valeurs Actuelles", diz que há uma possibilidade de Marine Le Pen chegar ao Eliseu para a qual apresenta uma base científica.

Ao contrário do que prevêem as sondagens, Marine pode vencer graças ao que Serge Galam chama a "abstenção diferenciada". Segundo o investigador, Le Pen não consegue passar a barreira dos 50%, mas pode beneficiar de uma fraca mobilização do eleitorado de Macron.

Traduzido em números, Galam parte de uma sondagem que dá 58% a Macron e 42% a Marine para considerar que, neste caso, se 90% dos eleitores de Marine votarem na segunda volta e apenas 65% dos eleitores que declararam o seu apoio a Macron o fizerem, Marine Le Pen seria eleita com 50,07% dos votos.

É uma hipótese remota, claro, mas temos visto vários casos em que o inesperado aconteceu...

domingo, 30 de abril de 2017

Macron, o candidato dos 'media'

Macron, o candidato dos media

Ainda as sondagens não apontavam Emmanuel Macron como candidato capaz de chegar à segunda volta das eleições presidenciais em França, já a imprensa dita "de referência" fazia um verdadeiro exercício de propaganda a este ex-ministro de Hollande, que de repente se tornara uma "sensação", uma "novidade", uma coqueluche mediática.

Não será por isso de estranhar que os media não se inibiram de manifestar o seu apoio expresso a Macron, como se tornaram engrenagens essenciais na sua máquina propagandística.

A cobertura da noite eleitoral da primeira volta é um exemplo paradigmático e foi muitíssimo bem desmontada por Michel Geoffroy numa exaustiva análise, cuja leitura aconselho. O ensaísta francês, colaborador da Fondation Polémia, conclui que nessa noite os media instalaram Macron como o futuro Presidente da República francesa.

Em Portugal, como no resto do mundo ocidental, a postura foi fundamentalmente a mesma. No entanto, houve um exemplo raro e louvável que é se impõe referir. Felisbela Lopes, professora universitária que lecciona Comunicação Social da Universidade do Minho, escreveu um artigo no "Jornal de Notícias" cujo título diz tudo: "Os média escolhem Macron". Nesse texto,  confessa a sua "repulsa a sofisticados processos de produção noticiosa que, sob o manto da imparcialidade e da precisão, procuram passar mensagens subliminares que orientem comportamentos. Por norma, os cidadãos percebem bem essa manipulação e tendem a reagir em sentido contrário daquele pretendido. Nestas eleições francesas, seria melhor noticiar com rigor o que os dois candidatos fazem e desconstruir exaustivamente as respetivas propostas, circunscrevendo a defesa de cada um aos espaços de opinião". É a defesa de um jornalismo ideal, dirão alguns, de uma objectividade impossível, dirão outros, mas não deixa de ser uma chamada de atenção muito importante, em especial neste tempo em que os media do sistema tanto se esforçam por recuperar uma credibilidade que dificilmente voltarão a ter.

segunda-feira, 10 de abril de 2017