segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Barreiras de amor...


À atenção dos nossos (des)governantes europeus. Em Copenhaga, a protecção dos peões contra possíveis "casos isolados" de a̶t̶a̶q̶u̶e̶s̶ ̶t̶e̶r̶r̶o̶r̶i̶s̶t̶a̶s̶, isto é, atropelamentos por veículos desgovernados, é feita com barreiras de amor. Estas medidas são aparentemente muito eficazes contra os fundamentalistas da "religião do amor", entre outros, servindo ainda para controlar o trânsito. Assim, apesar do sucedido em tantas cidades europeias, a paz o amor reinam, até porque nesta nossa época orwelliana "guerra é paz"...


sábado, 19 de agosto de 2017

Três perguntas a Dominique Venner sobre “Le Cœur rebelle”

Dominique Venner (16 de Abril de 1934 - 21 de Maio de 2013) 

Dominique Venner é uma das minhas referências maiores e foi por isso que não hesitei quando o meu amigo Christopher Gérard me desafiou a traduzir o seu regresso a “Le Cœur rebelle”, aquando da reedição, em 2014, de uma das obras fundamentais deste historiador meditativo”, como Venner se auto-descrevia, forjado pela tempestade. Foi um ensaio autobiográfico que muito me marcou e este oportuno regresso apenas me confirmou que este é um dos livros de Dominique Venner que urge traduzir e publicar em Portugal.


Com Dominique Venner

Numa das suas missivas, redigidas numa escrita angulosa, Dominique Venner escrevia-me que “a memória das origens é o alimento da alma”. Tão bela quanto justa – é um todo –, a fórmula ilustra o talento do seu autor, um atirador que nunca falhava o seu alvo. A bem-vinda reedição de “Le Cœur rebelle” [“O Coração Rebelde”, inédito em português], na minha opinião o seu mais belo livro a par do “Dictionnaire amoureux de la chasse”, permite-nos compreender: pegando no meu exemplar de 1994, lido com entusiasmo e júbilo, recaio sobre as minhas múltiplas anotações a lápis. Vinte anos depois da sua primeira leitura, cada frase sublinhada ainda fulmina. Que belo hino à determinação viril, que vigorosa carga contra a decadência e a resignação! O antigo cadete da Escola de Guerra de Rouffach, uma espécie de mosteiro guerreiro fundado por De Lattre, o antigo comando da fronteira tunisina, o antigo militante radical que planeará assassinar De Gaulle no Eliseu, o futuro historiador “meditativo”, Venner o espartano deixa-nos aqui o fundo do seu pensamento e, como o precisa num posfácio inédito datado de 2008, exorciza o seu passado. O cúmulo para um homem tão púdico, que detestava as histórias de antigos combatentes e a quem, paradoxo para um historiador, o seu próprio passado deixava indiferente. Nascido de uma dor e de um esforço sobre si próprio, “Le Cœur rebelle” é de alguma forma um misto do “Jeune Européen” de Drieu e de “La Guerre notre mère” de Jünger – o manual do insurgente moderno.
Sem ser ingénuo, Venner congratulava-se de ter podido conhecer “o casal divino, a coragem e o medo” outrora cantados por Drieu após a carga de Charleroi, como uma guerra quase feudal, a última (?) que deixava ainda a iniciativa ao indivíduo e não à máquina. Se não escondia a face atroz da sua guerra da Argélia, onde descobriu a crueldade pura (“uma criança triturada como uma lebre”), Venner descrevia bem a traição da retaguarda, o masoquismo odioso dos progressistas, a sua cobardia com pretensões humanitárias. Para Venner, esta guerra que nunca ousou verdadeiramente dizer o seu nome constitui uma experiência fundadora. Estou aliás convencido de que o seu suicídio foi a sua última consequência: o homem de espada, que durante tantos anos havia reprimido as suas pulsões nascidas do estrondo das armas, quis voltar a juntar-se aos seus camaradas do “djebel”, de pé, com os olhos abertos e pelo sangue derramado. Como ele escreve em “Le Cœur rebelle”, onde o tema do suicídio – o de Montherland e o do seu amigo Grossouvre, que se matou no seu gabinete no Eliseu – conclui o ensaio de maneira profética: “alcançar a sua morte é um dos actos mais importantes da vida”.
Das muitas páginas que poderiam ser citadas, escolho a última, que é de um escritor de raça e que não pode deixar de virar do avesso todas as almas de qualidade, de onde quer que elas venham: “Sou do país das árvores e da floresta, do carvalho e do javali, da vinha e dos telhados inclinados, das canções de gesta e dos contos de fadas, do solstício de Inverno e das festas de São João no Verão, das crianças loiras e dos olhares claros, da acção obstinada e dos sonhos loucos, das conquistas e da sabedoria. Sou do país onde fazemos o que devemos porque o devemos em primeiro lugar a nós próprios.”
Leiamos este livro, ofereçamo-lo às jovens almas ardentes. E saudemos Pierre-Guillaume de Roux, o editor, e Bruno de Cessole, o prefaciador, pela sua fidelidade a um amigo desaparecido.
Testemunho sobre uma juventude de tempestade, tratado estóico de saber-viver, reflexão sobre a acção, meditação sobre o trágico, “Le Cœur rebelle” ficará e encontrará novos leitores, porque este livro extraordinário ilustra o primado do estilo sobre as ideias, do instinto vital sobre as abstracções. “Le Cœur rebelle”, ou o suor e o sangue transmutados em espírito.

Christopher Gérard

Dominique Venner, Le Cœur rebelle, édition augmentée et préfacée par Bruno de Cessole, Pierre-Guillaume de Roux, 22€.



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Três perguntas a Dominique Venner
sobre “Le Cœur rebelle”

Christopher Gérard – Em “Le Cœur rebelle” evoca com simpatia “um jovem intolerante que levava em si mesmo como um odor de tempestade”: você mesmo no tempo dos combates militares na Argélia e, depois, políticos em França. Quem era então este jovem Kshatriya, donde vinha, quem eram os seus mestres, os seus autores predilectos?

Dominique Venner – É aqui que encontramos uma alusão ao “gerfaut” da sua primeira pergunta, recordação de uma época estimulante e perigosa onde o jovem que eu era acreditava poder inverter um destino contrário através de uma violência assumida. Isto pode parecer extremamente presunçoso, mas, à época, eu não reconhecia qualquer mestre. É claro, eu ia procurar estímulos e receitas no “Que fazer?”, de Lenine, ou em “Os Reprovados”, de Ernst von Salomon. Acrescento que as leituras infantis contribuíram para forjar em mim uma certa visão do mundo que no final foi muito pouco desmentida. Em conjunto, citarei “Éducation et discipline militaire chez les Anciens” [“Educação e Disciplina Militar nos Antigos”, de Marcel Poullin (1883)], pequeno livro sobre Esparta que vinha do meu avô materno, um antigo oficial, “A Lenda da Águia” de Georges d’Esparbès, “O Bando dos Ayacks” de Jean-Louis Foncine, “O Apelo da Floresta” de Jack London, enquanto não lia mais tarde o admirável “Martin Eden”. Tratavam-se de livros formadores dos meus dez ou doze anos. Mais tarde, por volta dos vinte ou vinte e cinco anos, tinha passado naturalmente a outras leituras, mas as livrarias eram então mal fornecidas. Era uma época de penúria intelectual da qual não temos ideia hoje. A biblioteca de um jovem activista, mesmo de um devorador de livros, era magra. Na minha, por entre obras históricas, figuravam “Reflexões sobre a Violência” de Georges Sorel, “Os Conquistadores” de Malraux, “Genealogia da Moral” de Nietzsche, “Serviço Inútil” de Montherland, ou ainda “O Romantismo Fascista” de Paul Sérant, revelação dos anos 60. Vemos que não ia muito longe. Mas se as minhas ideias eram curtas, os meus instintos eram profundos. Muito cedo, enquanto ainda era soldado, senti que a guerra da Argélia era uma coisa diferente do que se dizia ou do que pensavam os ingénuos defensores da “Argélia francesa”. Percebi que se tratava de um combate identitário para os europeus porque na Argélia estavam ameaçados na sua própria existência por um adversário étnico. Senti igualmente que lá defendíamos – muito mal – as fronteiras meridionais da Europa. Contra as invasões, as fronteiras defendem-se sempre para além dos mares ou dos rios.


Neste livro, que é um pouco a sua autobiografia, escreve: “Sou do país das árvores e da floresta, do carvalho e do javali, da vinha e dos telhados inclinados, das canções de gesta e dos contos de fadas, do solstício de Inverno e das festas de São João no Verão.” Que estranho paroquiano é você, afinal?

Para dizer as coisas de maneira breve, sou demasiado conscientemente europeu para em nada me sentir filho de Abraão ou de Moisés, ao mesmo tempo que me sinto plenamente o de Homero, de Epicteto ou da Távola Redonda. Isto significa que procuro as minhas referências em mim, o mais próximo das minhas origens e não num lugar longínquo que me é perfeitamente estranho. O santuário onde me vou recolher não é o deserto, mas a floresta profunda e misteriosa das minhas origens. O meu livro sagrado não é a “Bíblia”, mas a “Ilíada”, poema fundador da psique ocidental, que atravessou miraculosa e vitoriosamente os tempos. Um poema que vai às mesmas fontes que as lendas célticas e germânicas de que manifesta a espiritualidade, se nos dermos ao trabalho de o decifrar. No entanto, não esqueço os séculos cristãos. A catedral de Chartres faz parte do meu universo da mesma forma que Stonehenge ou o Partenon. Esta é a herança que é necessário assumir. A História dos europeus não é simples. Depois de milénios de religião indígena, o cristianismo foi-nos imposto por uma série de acidentes históricos. Mas foi ele próprio em parte transformado, “barbarizado” pelos nossos antepassados, os bárbaros, os francos e outros. Foi amiúde vivido como uma transposição dos cultos antigos. Atrás dos santos, continuou-se a celebrar os deuses familiares sem se fazer grandes perguntas. E nos mosteiros recopiavam-se os textos antigos sem necessariamente os censurar. Esta permanência é ainda verdadeira hoje em dia, mas sob outras formas, apesar dos esforços da predicação bíblica. Parece-me necessário ter em conta a evolução dos tradicionalistas que constituem tantas vezes ilhas salutares, opondo ao caos ambiente as suas famílias robustas, as suas crianças numerosas e o seu agrupamento de jovens em boa forma. A perenidade da família e da pátria que eles reclamam, a disciplina na educação, a firmeza nas provas não tem evidentemente nada de especificamente cristão. São réstias da herança romana e estóica que a Igreja mais ou menos assumiu até ao início do século XX. Inversamente, o individualismo, o cosmopolitismo actual, o culpabilismo são heranças laicizadas do cristianismo, como o antropocentrismo extremo e a dessacralização da Natureza nos quais eu vejo a fonte de uma modernidade faustiana enlouquecida de cujos efeitos pagaremos um elevado preço.

Em “Le Cœur rebelle” diz também: “Os dragões são vulneráveis e mortais. Os heróis e os deuses podem sempre regressar. Não há fatalidade a não ser no espírito dos homens.” Pensamos em Jünger, que conheceu, que via em acção Titãs e Deuses…

Matar em si próprio as tentações fatalistas é um exercício que não tolera descanso. Quanto ao resto, deixemos às imagens o seu mistério e as suas múltiplas radiações, sem as apagar com uma interpretação racional. O dragão pertence desde a eternidade ao imaginário ocidental. Ele simboliza umas vezes as forças telúricas, outras as forças malignas. Foi pela luta vitoriosa contra um monstro que Hércules, Siegfried ou Teseu acederam ao estatuto de herói. À falta de heróis, não é difícil reconhecer na nossa época a presença de diversos monstros, que eu não creio que sejam invencíveis mesmo que o pareçam.

Entrevista feita por Christopher Gérard para a revista “Antaios”, em 2001.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A um Amigo que partiu

José Rebordão Esteves Pinto (1932 - 2017)
Volto a escrever n’O DIABO com tristeza e saudade. Regresso à que foi para mim uma segunda casa para registar no papel e gravar na memória do nosso jornal a importância de um Amigo que partiu. Aos leitores é escusado repetir o que o esforço do José Esteves Pinto, como ele assinava, representou num país onde a Imprensa, os partidos e até as pessoas se tornaram cada vez mais formatados, cópias mal feitas de uma cópia, sem pensamento crítico, valores ou vontade – meros repetidores da norma vigente, do que é “politicamente correcto”, desprovidos de alma.

O que me interessa contar é como o Rebordão, como os Amigos lhe chamavam, me marcou, desde a primeira vez que o li até à nossa última conversa, passando pelo dia em que me confiou a direcção de O DIABO.

Como escrevi no meu primeiro editorial como director, no agora longínquo ano de 2011, este foi um jornal com o qual, literalmente, cresci. Lia-o avidamente e saltava sempre da primeira para a última página, para ler as “Coisas d’O Diabo”. Eram comentários mordazes e acutilantes, mas também ácidos e por vezes até corrosivos. Quem diria que um dia seria eu a escrevê-los e que, mesmo com os elogios de tantos leitores, só me satisfiz com a aprovação do “mestre”, como bom aprendiz que fora?

Lera-o e conhecia a sua mitologia, mas foi num jantar com amigos que pela primeira vez o ouvi e ri com as suas histórias como se nos conhecêssemos desde sempre... Estou seguro de que foi essa amizade franca, característica dos combatentes que se reconhecem, que o fez – sem hesitar, pelo que me garantiram – confiar-me a hercúlea tarefa de continuar o nosso jornal. Acompanhou o meu trabalho à distância e sem interferir, como só consegue fazer quem não tem dúvidas na sua escolha.

A última vez que o vi foi em tribunal, em mais um processo contra o jornal, e foi arrebatadora a forma como, à medida que o seu tom de voz aumentava e as suas palavras incendiavam os corações de um lado e chamuscavam os argumentos do outro, mostrou que o seu fogo interior não havia perdido o fulgor.

Quando saí de O DIABO, compreendeu. E continuámos a falar regularmente. Foi um período de amizade amadurecida. Entendi finalmente porque é que nunca cedera a dar-me uma entrevista, porque há histórias que são para alguns e não para os demais, e recordei com ele as nossas leituras e algumas aventuras.

Num dos livros de que tanto gostávamos, “Como o tempo passa...”, Brasillach escreveu que a forma mais bela da coragem é a lucidez. Palavras sábias que me recordam um camarada.
Por tudo isto e por sentimentos que nem as palavras conseguem expressar, a notícia da sua morte sugou-me as forças e deixou-me cabisbaixo. Mas olhei para cima e pensei que, onde quer que esteja, está a olhar para ‘isto’ e a rir-se desta cambada com que nunca se identificou e sempre denunciou. Foi essa certeza que me fez respirar fundo e dar uma gargalhada – com ele. Adeus, meu Amigo!

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 28 de julho de 2017

O regresso dos agentes espácio-temporais


Valérian e Laureline foram mais uns daqueles heróis de Banda Desenhada que preencheram o imaginário da minha adolescência. A propósito da sua recente transmutação em filme, o «Público» teve a óptima ideia de republicar a colecção integral em álbuns duplos. É pena que não tenha optado pela edição em capa dura, mas está de parabéns por continuar a não ceder à crescente imposição do famigerado Acordo Ortográfico. Assim, podemos reler as aventuras da mais famosa dupla de agentes espácio-temporais tal e qual como quando éramos jovens sonhadores.

Relativamente ao filme, realizado por Luc Besson e que tenta levar estes heróis (ou uma versão deles) para o mercado do outro lado do Atlântico, tenho as maiores reservas, mas ainda assim tenciono vê-lo. O Eurico de Barros, que é um apreciador da BD como eu, escreveu que mesmo com reservas, "o filme é muito mais potável do que um apreciador da série de BD desde a primeira hora (como é o autor destas linhas) poderia temer, sobressaindo clara e positivamente de entre tudo o que tem sido feito nesta ingrata área das adaptações de BD franco-belga ao cinema." Veremos...

sábado, 15 de julho de 2017

Evocação de Carl Schmitt



Alain de Benoist convidou Alexandre Franco de Sá e Aristide Leucate para uma emissão de "Les Idées à l'endroit", na TV Libertés, sobre Carl Schmitt. Nesta óptima evocação do jurista, filósofo e politólogo alemão, que continua tão desconhecido entre nós, o único defeito foi a curta duração do programa... A (re)ver!

domingo, 9 de julho de 2017

Um Verão com Homero


Há uma semana, o escritor-viajante Sylvain Tesson iniciou uma excelente série de emissões radiofónicas, aos sábados na France Inter, sob o tema "Um Verão com Homero". Os dois programas já transmitidos estão disponíveis online e quem ouvir este óptimo regresso aos clássicos não vai querer perder o resto da série.

A propósito da Ilíada, diz Tesson: «Um poema, surgido da memória, explode na eternidade. Como explicar que uma narrativa com mais de 2500 anos, brotado do mar eterno, soa aos nossos ouvidos com tanta juventude, com um borbulhar tão vivaz que rebenta numa encosta de mármore. Porque é que estes versos parecessem ter sido escritos esta manhã por um irmão imortal muito velho para nos ensinar de que serão feitos os amanhãs?» Irresistível...

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Philippe Conrad fala sobre D. Sebastião



Philippe Conrad, director de "La Nouvelle Revue d'Histoire", fala sobre D. Sebastião, a Batalha de Alcácer-Quibir, os falsos D. Sebastião, a crise sucessória, o sebastianismo e a Restauração da Independência, na mais recente emissão de "Passé Présent", o programa da TV Libertés dedicado à História.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A terra devastada é a nossa...


A terra devastada é a nossa. Não é um lugar longínquo que mora na televisão.
A gente massacrada é a nossa. Não é um punhado de velhotes descartáveis.
A terra devastada é a nossa. Pela incúria dos que tanto falam e nada fazem.
A gente massacrada é a nossa. Assassinada por irresponsáveis sem absolvição.
A terra devastada é a nossa. Maltratada, mas com possibilidades inimagináveis.
A gente massacrada é a nossa. Raízes humanas de ermos onde já poucos vivem.
É nossa a terra devastada. Que nem desta vez nos servirá de lição.
É nossa a gente massacrada. Filhos do País que afinal são dispensáveis.
É nossa a terra devastada. E nada mudará, todos o sabem.

domingo, 7 de maio de 2017

Submissão


No dia da vitória de Emmanuel Macron, é de recordar uma passagem de "Submissão", o romance assustadoramente premonitório de Michel Houellebecq:

"A progressão da extrema-direita tornara as coisas um pouco mais interessantes ao trazer para os debates o esquecido calafrio do fascismo; mas só em 2017 é que as coisas começaram verdadeiramente a mexer, com a segunda volta das presidenciais. Siderada, a imprensa internacional assistiu então ao vergonhoso espectáculo, embora aritmeticamente inelutável, da reeleição de um presidente de esquerda num país cada vez mais abertamente de direita. Poucas semanas depois do escrutínio eleitoral, espalhou-se em todo o país uma atmosfera estranha, opressiva, uma espécie de desespero sufocante, profundo, embora aqui e ali atravessado por assomos insurreccionais. Nessa altura, muitos foram os que optaram pelo exílio. Um mês depois dos resultados finais, Mohammed Ben Abbes anunciou a criação da Fraternidade Muçulmana."

sexta-feira, 5 de maio de 2017

A Direita francesa, as eleições presidenciais e Marine Le Pen


Há dois anos entrevistei o Bruno Garschagen, professor de Teoria Política, autor e tradutor, a propósito do seu livro “Pare de acreditar no Governo. Por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado”. Apesar das nossas diferenças, mantivemos o contacto, a amizade e o salutar debate de ideias. Desta vez, a propósito das eleições presidenciais francesas, os papéis inverteram-se e fui eu o entrevistado. Aqui fica a ligação para a entrevista que dei ontem em directo, uma óptima experiência que, assim espero, seja útil à compreensão do que está em jogo no próximo dia 7 de Maio. 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A teoria que dá a vitória a Marine Le Pen

Marine Le Pen

Serge Galam, físico e investigador em Ciência Política no CEVIPOF previu a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais nos EUA e a derrota de Alain Juppé nas primárias da Direita francesa. Agora, segundo noticia o "Le Point" e desenvolve a revista "Valeurs Actuelles", diz que há uma possibilidade de Marine Le Pen chegar ao Eliseu para a qual apresenta uma base científica.

Ao contrário do que prevêem as sondagens, Marine pode vencer graças ao que Serge Galam chama a "abstenção diferenciada". Segundo o investigador, Le Pen não consegue passar a barreira dos 50%, mas pode beneficiar de uma fraca mobilização do eleitorado de Macron.

Traduzido em números, Galam parte de uma sondagem que dá 58% a Macron e 42% a Marine para considerar que, neste caso, se 90% dos eleitores de Marine votarem na segunda volta e apenas 65% dos eleitores que declararam o seu apoio a Macron o fizerem, Marine Le Pen seria eleita com 50,07% dos votos.

É uma hipótese remota, claro, mas temos visto vários casos em que o inesperado aconteceu...

domingo, 30 de abril de 2017

Macron, o candidato dos 'media'

Macron, o candidato dos media

Ainda as sondagens não apontavam Emmanuel Macron como candidato capaz de chegar à segunda volta das eleições presidenciais em França, já a imprensa dita "de referência" fazia um verdadeiro exercício de propaganda a este ex-ministro de Hollande, que de repente se tornara uma "sensação", uma "novidade", uma coqueluche mediática.

Não será por isso de estranhar que os media não se inibiram de manifestar o seu apoio expresso a Macron, como se tornaram engrenagens essenciais na sua máquina propagandística.

A cobertura da noite eleitoral da primeira volta é um exemplo paradigmático e foi muitíssimo bem desmontada por Michel Geoffroy numa exaustiva análise, cuja leitura aconselho. O ensaísta francês, colaborador da Fondation Polémia, conclui que nessa noite os media instalaram Macron como o futuro Presidente da República francesa.

Em Portugal, como no resto do mundo ocidental, a postura foi fundamentalmente a mesma. No entanto, houve um exemplo raro e louvável que é se impõe referir. Felisbela Lopes, professora universitária que lecciona Comunicação Social da Universidade do Minho, escreveu um artigo no "Jornal de Notícias" cujo título diz tudo: "Os média escolhem Macron". Nesse texto,  confessa a sua "repulsa a sofisticados processos de produção noticiosa que, sob o manto da imparcialidade e da precisão, procuram passar mensagens subliminares que orientem comportamentos. Por norma, os cidadãos percebem bem essa manipulação e tendem a reagir em sentido contrário daquele pretendido. Nestas eleições francesas, seria melhor noticiar com rigor o que os dois candidatos fazem e desconstruir exaustivamente as respetivas propostas, circunscrevendo a defesa de cada um aos espaços de opinião". É a defesa de um jornalismo ideal, dirão alguns, de uma objectividade impossível, dirão outros, mas não deixa de ser uma chamada de atenção muito importante, em especial neste tempo em que os media do sistema tanto se esforçam por recuperar uma credibilidade que dificilmente voltarão a ter.

segunda-feira, 10 de abril de 2017