quinta-feira, 16 de novembro de 2017

João Miguel Tavares e os websummitas


Há cerca de um mês, cruzei-me com o João Miguel Tavares num dos meus alfarrabistas de eleição. Decidi apresentar-me e dar-lhe os parabéns por um texto corajoso, “Sócrates não merece cair sozinho”. Ele agradeceu e eu voltei à carga, dizendo que o leio regularmente e que, se por vezes concordo com o que escreve, outras discordo totalmente. Ele sorriu e disse-me: “Ainda bem, é sinal que não sou previsível.”

Vem isto a propósito de outros textos dele, sobre a Web Summit, um encontro que tanto alarde tem provocado, e sobre o qual João Miguel Tavares disse “o rei vai nu”. Como sabemos, os crentes, pior do que não quererem ver, sentem-se ofendidos.

Vamos às citações. Primeiro, Tavares denuncia aquilo a que chama “Web Summoparolice”, dizendo que “aquilo que a Web Summit vende, além de bilhetes milionários, são sonhos de sucesso que só existem num mundo de fantasia, tendo em conta que a taxa de mortalidade das startups varia entre os 90 e os 99,9% (os especialistas dividem-se). A Web Summit é a Igreja Universal do Reino da Tecnologia, e Cosgrave o seu pastor, podendo dar-se ao luxo de só revelar o programa um mês antes de abrir portas, quando boa parte dos bilhetes está vendida: "As pessoas já não vêm pelos oradores”, diz ele. “Vêm porque está toda a gente no mesmo sítio ao mesmo tempo." Certo. Chama-se a isso uma feira.” Conclusão: “O sucesso não se transmite por osmose e o país continua igualzinho.” Acrescenta ainda um dado bem curioso, “o número de startups criadas em Portugal em 2017, após o enorme sucesso da primeira Web Summit, diminuiu”...

Como seria de esperar, os websummitas (i.e. os devotos de S. Cosgrave e da Tecnologia Toda-Poderosa) deram início a um auto-de-fé (internético, entenda-se) sem tréguas, mas João Miguel Tavares respondeu aos “mirones do empreendedorismo”, num texto em que há a salientar uma passagem que resume muito bem a febre doentia deste evento: “O verdadeiro parolo da Web Summit não é o empreendedor que ali vai apresentar uma ideia, nem o miúdo que vai à procura de um sonho, nem o investidor que vai à procura de um negócio, mas sim a catrefada absurda de portugueses que confundem trabalho com networking, que acham que ter ideias originais é copiar as ideias dos outros, que não distinguem informação de conhecimento. Eu conheço demasiada gente que está sempre a par da última tecnologia e da última trend, que tem sempre o mais recente modelo de iPhone, que sabe tudo o que se passa na Google e no Facebook, mas que depois é absolutamente incapaz de ter uma única ideia original, de construir um produto de jeito, de fazer algo para o qual possamos olhar e dizer: "sim senhor, isto está realmente bem feito, parabéns."

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A revista "Antiquité" chega a Portugal


Há dois anos, quando saiu o primeiro número da “Antiquité”, a auto-denominada “revista da Antiguidade europeia”, escrevi aqui que esperava que, à semelhança do que acontece com tantas publicações francesas do mesmo género, esta viesse a ser vendida em quiosque no nosso país. É caso para dizer que o meu desejo se concretizou, em parte...

Felizmente, para os apaixonados pela História da Antiguidade, o primeiro número especial da “Antiquité”, dedicado ao hoplita, “o primeiro guerreiro da História”, e que trata do período arcaico, dos micénicos às Termópilas, ao qual se seguirá um segundo volume, pode ser comprado directamente no nosso país, poupando-nos os excessivos gastos em portes de correio.

Esta é a boa notícia, a má é que, ao avaliar pela capa do n.º 9 da série regular, que não inclui o preço de venda para o nosso país, esta não será ainda vendida em Portugal. Será a distribuição em Portugal do número especial um teste de mercado? Se sim, espera-se que seja bem sucedido. Já fiz a minha parte.

domingo, 12 de novembro de 2017

A sala de troféus de Abu Dhabi


Leio no “Público” que “o novo Louvre Abu Dhabi quer ser um museu da era global” e reconheço que o título quase dispensa a leitura da notícia. Mas, vamos a isto...

Ficamos a saber que “o novo museu dos Emiratos Árabes Unidos usa o nome, algumas obras e a experiência e competências técnicas do museu parisiense, mas não é uma sucursal do Louvre, é uma instituição dotada de plena autonomia, cujo percurso expositivo em boa medida rompe com as práticas dos grandes museus de arte ocidentais”. “Romper”? Não será um termo demasiado forte nesta era de entendimento global? Nem por isso, porque o que está em causa são as referências ocidentais. Senão, vejamos.

O museu usa “peças emprestadas não apenas por instituições francesas, mas também por vários museus do Médio Orientee este mix serve nem mais nem menos para proporuma história da arte global, que vai sistematicamente justapondo obras produzidas num mesmo período, mas em paragens geográficas e contextos culturais diferentes, mostrando aproximações e influências recíprocas raramente sublinhadas nas salas dos museus europeus”. Mais ainda, “o percurso expositivo organiza-se depois em doze capítulos ordenados cronologicamente. Mas uma cronologia que também não se revê necessariamente na periodologia ocidental”. Notem-se estas “inovações” (correcções?) em relação aos museus europeus. Está-se bem a ver o resultado, até porque a notícia conclui que “para os mais entusiastas, o Louvre Abu Dhabi poderá marcar o início de um novo conceito de museu, mais adequado à era global”.

E tudo isto tem, obviamente, o aval do presidente francês, Emmanuel Mácron, que, após uma visita, não poupou elogios a este “Louvre do deserto e da luz”, exemplo de como a beleza “pode combater os discursos do ódio”. A cassete (CD, mp3, ou lá o que seja agora) não mudou... A Europa vende-se como marca aos seus detractores pelos chantres da mundialização.

Mas, sob a capa de toda esta xenofilia, as verdadeiras razões para o Louvre se vender desta forma são as óbvias: o dinheiro. Ora vejamos as somas astronómicas, “o emirato pagará 525 milhões de dólares pelo direito a poder usar o nome do Louvre durante 30 anos e seis meses, desembolsando mais 747 milhões (num total de 1093 milhões de euros) pelo empréstimo, por dez anos, de 300 obras de arte de diversos museus franceses”. Ah, o deslumbre do capital global!...

Nem de propósito, à laia de (tragic) comic relief, em 2015, um relatório da Human Rights Watch denunciava que “muitos dos emigrantes que trabalhavam na obra eram sujeitos a condições próximas da escravatura, e arriscavam prisão sumária ou deportação se ousassem queixar-se”.

Ilusões à parte, como todos os museus, este continua a ser, no essencial, uma afirmação de poder: uma sala de troféus.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O cão de Deus


Chegou finalmente "Le Chien de Dieu", um álbum de banda desenhada com argumento de Jean Dufaux e arte de Jacques Terpant, autor que muito aprecio e ao qual dediquei um texto sobre a sua trilogia dos "Sete Cavaleiros", baseada no romance homónimo do grande escritor francês Jean Raspail.

Desta vez, Terpant desenha magistralmente o génio das letras francesas, tornado escritor "maldito", Louis-Ferdinand Céline, a quem Drieu La Rochelle chamou "cão de Deus". O argumento, uma ficção dos últimos dias da vida do escritor que se apoia na obra de Céline para revisitar os momentos marcantes do passado, é fluído e bem construído.

Fiz a pré-encomenda mal foi possível e li-o atenta e sofregamente, para o fotografar acompanhado dos livros do retratado.

Uma excelente obra, cuja leitura é obrigatória!

sábado, 7 de outubro de 2017

Construir uma biblioteca


O título deste post devia ser uma preocupação de qualquer homem cultivado, mas cada vez menos a construção da biblioteca pessoal importa. É por isso de saudar o artigo do Carlos Maria Bobone, chamado exactamente "Como construir uma biblioteca milionária". É claro que o foco está nos livros enquanto investimento, tal como se de uma colecção de arte se tratasse, mas a abordagem não invalida o interesse natural para qualquer bibliófilo, bem pelo contrário.

O artigo tem aspectos bem curiosos e desfaz vários lugares-comuns, como por exemplo ao recordar que "é preciso vincar que livros com cem anos não são livros antigos". Dos vários conselhos práticos,   lembra que "a primeira edição só interessa se for rara" e que os livros de arte não são, por natureza, livros caros, ao contrário da errada crença comum.

Enfim, um texto informativo, curioso e até divertido, para bibliófilos e não só. A ler!

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Obama, Trump e um país dividido


Sabemos que na Europa Ocidental Obama teve um estatuto de quase “santo”, mas aquele que se apresentou como o candidato “pós-racial” que traria a união dos norte-americanos foi de facto o que marcou uma profunda divisão no eleitorado norte-americano. No aspecto racial, recorde-se a interrogação da National Review, no ano passado: “Após oito anos do primeiro Presidente afro-americano, porque é que as relações raciais na América estão tão más?

A propósito da divisão eleitoral, veja-se o artigo “Obama e Trump, os divisores-em-chefe numa América sem rumo” publicado ontem no insuspeito «Público», jornal que nunca escondeu as suas simpatias por Obama: “Como a profunda divisão que existe hoje em dia entre republicanos e democratas é vista muitas vezes como um fenómeno criado pela vitória de Trump em Novembro do ano passado, talvez valha a pena recordar as percentagens de popularidade de Obama no dia em que o Presidente norte-americano mais querido na Europa saiu da Casa Branca – com 83% de "gostos" no lado do Partido Democrata e 13% de carinhas sorridentes no Partido Republicano, foi o Presidente que mais dividiu os eleitores norte-americanos desde que há registos, segundo os estudos da empresa Gallup.

Continuando a contrariar a ilusão que a Europa viveu em relação à popularidade de Obama, o artigo diz que “mesmo com todas as diferenças entre épocas, quem estuda as sondagens admite que se possa estar perante um "novo normal", como se lê no comentário da empresa Gallup. E, se esse "novo normal" veio mesmo para ficar, "os Presidentes vão ter muitas dificuldades para alcançarem valores positivos nas taxas de aprovação" – algo que aconteceu também com Barack Obama, apesar da ideia generalizada na Europa de que o antecessor de Trump foi mais popular do que era habitual. No final dos seus mandatos, Obama teve uma taxa de aprovação média de 47,9%, e só teve valores positivos em três fases: no início do primeiro mandato, na altura da reeleição e na fase final do segundo e último mandato”.

Comentando, de seguida, a impopularidade de Trump, afirma que “é nesta mistura de "novo normal" com uma plataforma política quase oposta à que serviu de guião a Barack Obama que Donald Trump tem navegado. O resultado está à vista: Trump tem mantido, e até reforçado, a tendência dos últimos anos para dividir ainda mais os eleitores americanos, e é ao mesmo tempo um dos presidentes menos populares de sempre”.

Apesar de tudo, há que dizer que toda esta impopularidade de Trump não vem de hoje e não o impediu de chegar a Presidente dos EUA. Trump foi, como muito bem analisou Carlos M. G. Martins, o homem que desafiou o statu quo.


Esse desafio começou dentro do próprio Partido Republicano, pelo qual Trump se candidatou. No livro “Trump - Desafiar o Staus Quo”, publicado pela Gladius Editions, Carlos M. G. Martins escreveu que “o distanciamento crescente entre a base e as elites não se limita à interligação entre o político e o económico. A própria dinâmica política e interpartidária tem provocado essa cisão. Durante vários meses, a cúpula do Partido Republicano tinha demonstrado dificuldade em aceitar os resultados obtidos nas urnas. À medida que se tornava mais evidente que Trump seria o escolhido pelos eleitores, essa frustração permitia identificar laivos de honestidade dentro do "sistema".” Carlos Martins cita depois uma entrevista do republicano Curly Haugland à CNBC, da qual retiro uma passagem esclarecedora: “Ao contrário da sabedoria popular, são os partidos quem decide quem são os candidatos, e não os eleitores”.

Regressando ao “país dividido”, percebe-se que não foi o fenómeno Trump que causou a fractura e que o agravamento dessa situação é inevitável. Uma coisa é certa, chame-se Obama ou Trump, o ressurgimento da Europa nunca virá do outro lado do Atlântico.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O mau jornalismo habitual (XII): a Alternative für Deutschland

Alice Weidel, a líder parlamentar da AfD que é assumidamente homossexual.

Sabemos que a classificação "extrema-direita" é naturalmente discutível e amiúde utilizada pejorativamente, normalmente como "alerta para o regresso do fascismo". Mas, sem grandes dificuldades, admitamos para esta exposição a Alternative für Deutschland (AfD) nessa categoria.

Ora, se a AfD é de extrema-direita, também o era o Deutsche Konservative Partei - Deutsche Rechtspartei (o partido usou as duas designações consoante os Länder), que existiu entre 1946 e 1950, elegendo cinco deputados ao Bundestag, nas primeiras eleições federais pós-Segunda Guerra Mundial, em 1949.

Vem isto a propósito da "notícia", apregoada por tantos media, de que a AfD seria a primeira força de extrema-direita a entrar no Bundestag. Tomemos um exemplo paradigmático. Mafalda Anjos, a "diretora" (assim mesmo, sem o "c" de carácter que a submissão ao Acordo Ortográfico impôs) da revista "Visão", ainda por cima "em Berlim", fazia a seguinte previsão: "Extrema-direita terá assento no Parlamento alemão pela primeira vez desde 1945".

No estilo habitual destes lamentos alarmistas, Mafalda Anjos recorda que a Alemanha é um "país onde a herança de um passado nazi ainda está bem presente", mas a classificação da AfD, ao longo do artigo parece ir esmorecendo... Da "extrema-direita" do título, passamos para "direita-radical" no segundo parágrafo e, já no final, para "partido conservador anti-imigração". Provavelmente são sinónimos, já que na ampla classificação de "extrema-direita" cabe muita coisa. Cabe até Alice Weidel, uma das líderes da AfD, de quem a "diretora" da "Visão" diz que é "uma lésbica orgulhosa, casada com uma mulher do Sri-Lanka, trabalhou na Goldman Sachs e vive na Suiça".

Vamos aos factos, que falharam neste artigo, muito provavelmente por ignorância histórica e cegueira ideológica. Alice Weidel é homossexual assumida e vive com Sarah Bossard, uma cidadã suíça de origem cingalesa, com quem adoptou dois rapazes. No entanto, Weidel está longe de ser a habitual defensora dos direitos homossexuais e da teoria de género. Quando a AfD lamentou a legalização do casamento entre homossexuais na Alemanha, dizendo "adeus à família alemã", Weidel afirmou que "ser a favor da família tradicional não significa rejeitar outros estilos de vida" e referiu a sua própria eleição para a liderança do partido como prova da tolerância da AfD. Sobre o tema do casamento entre homossexuais, considerou não ser uma prioridade no debate, afirmando: "debater o casamento para todos enquanto milhões de muçulmanos imigram ilegalmente para a Alemanha é uma anedota!" Por outro lado, Weidel disse ainda não querer para as suas crianças a "idiotice de género" ou a "sexualização das aulas".

Contraditório? Talvez. A verdade é que muitos dos partidos considerados de "extrema-direita" que têm tido sucessos eleitorais apresentam várias diferenças em relação aos seus congéneres do passado. Evolução natural ou fim de uma era? Será a AfD a "nova extrema-direita", pelo menos na opinião de Riccardo Marchi que insere o partido na família "dos partidos com agenda política eurocética, anti-imigração, anti-islâmica, mas cujas raízes não afundam nos autoritarismos do período entreguerras"? Mais ainda, como afirma este historiador italiano radicado em Portugal, será a AfD "o coveiro do neonazismo"? Recusando uma classificação binária, a análise não deixa de merecer uma atenta reflexão.

Voltando ao início deste texto, como sabemos, a AfD tornou-se o terceiro partido mais representado no Bundestag, mas não foi o primeiro partido de "extrema-direita" a ter assento no parlamento alemão. Esse lugar pertence ao Deutsche Konservative Partei - Deutsche Rechtspartei. Aliás, o percurso dos deputados desse partido eleitos em 1949 é curioso, já que dois deles se juntaram ao Sozialistische Reichspartei Deutschlands (SRP), um partido strasseriano que foi, em 1952, o primeiro partido a ser ilegalizado pelo Tribunal Federal Constitucional. Mas essa, é outra história...

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Barreiras de amor...


À atenção dos nossos (des)governantes europeus. Em Copenhaga, a protecção dos peões contra possíveis "casos isolados" de a̶t̶a̶q̶u̶e̶s̶ ̶t̶e̶r̶r̶o̶r̶i̶s̶t̶a̶s̶, isto é, atropelamentos por veículos desgovernados, é feita com barreiras de amor. Estas medidas são aparentemente muito eficazes contra os fundamentalistas da "religião do amor", entre outros, servindo ainda para controlar o trânsito. Assim, apesar do sucedido em tantas cidades europeias, a paz o amor reinam, até porque nesta nossa época orwelliana "guerra é paz"...


sábado, 19 de agosto de 2017

Três perguntas a Dominique Venner sobre “Le Cœur rebelle”

Dominique Venner (16 de Abril de 1934 - 21 de Maio de 2013) 

Dominique Venner é uma das minhas referências maiores e foi por isso que não hesitei quando o meu amigo Christopher Gérard me desafiou a traduzir o seu regresso a “Le Cœur rebelle”, aquando da reedição, em 2014, de uma das obras fundamentais deste historiador meditativo”, como Venner se auto-descrevia, forjado pela tempestade. Foi um ensaio autobiográfico que muito me marcou e este oportuno regresso apenas me confirmou que este é um dos livros de Dominique Venner que urge traduzir e publicar em Portugal.


Com Dominique Venner

Numa das suas missivas, redigidas numa escrita angulosa, Dominique Venner escrevia-me que “a memória das origens é o alimento da alma”. Tão bela quanto justa – é um todo –, a fórmula ilustra o talento do seu autor, um atirador que nunca falhava o seu alvo. A bem-vinda reedição de “Le Cœur rebelle” [“O Coração Rebelde”, inédito em português], na minha opinião o seu mais belo livro a par do “Dictionnaire amoureux de la chasse”, permite-nos compreender: pegando no meu exemplar de 1994, lido com entusiasmo e júbilo, recaio sobre as minhas múltiplas anotações a lápis. Vinte anos depois da sua primeira leitura, cada frase sublinhada ainda fulmina. Que belo hino à determinação viril, que vigorosa carga contra a decadência e a resignação! O antigo cadete da Escola de Guerra de Rouffach, uma espécie de mosteiro guerreiro fundado por De Lattre, o antigo comando da fronteira tunisina, o antigo militante radical que planeará assassinar De Gaulle no Eliseu, o futuro historiador “meditativo”, Venner o espartano deixa-nos aqui o fundo do seu pensamento e, como o precisa num posfácio inédito datado de 2008, exorciza o seu passado. O cúmulo para um homem tão púdico, que detestava as histórias de antigos combatentes e a quem, paradoxo para um historiador, o seu próprio passado deixava indiferente. Nascido de uma dor e de um esforço sobre si próprio, “Le Cœur rebelle” é de alguma forma um misto do “Jeune Européen” de Drieu e de “La Guerre notre mère” de Jünger – o manual do insurgente moderno.
Sem ser ingénuo, Venner congratulava-se de ter podido conhecer “o casal divino, a coragem e o medo” outrora cantados por Drieu após a carga de Charleroi, como uma guerra quase feudal, a última (?) que deixava ainda a iniciativa ao indivíduo e não à máquina. Se não escondia a face atroz da sua guerra da Argélia, onde descobriu a crueldade pura (“uma criança triturada como uma lebre”), Venner descrevia bem a traição da retaguarda, o masoquismo odioso dos progressistas, a sua cobardia com pretensões humanitárias. Para Venner, esta guerra que nunca ousou verdadeiramente dizer o seu nome constitui uma experiência fundadora. Estou aliás convencido de que o seu suicídio foi a sua última consequência: o homem de espada, que durante tantos anos havia reprimido as suas pulsões nascidas do estrondo das armas, quis voltar a juntar-se aos seus camaradas do “djebel”, de pé, com os olhos abertos e pelo sangue derramado. Como ele escreve em “Le Cœur rebelle”, onde o tema do suicídio – o de Montherland e o do seu amigo Grossouvre, que se matou no seu gabinete no Eliseu – conclui o ensaio de maneira profética: “alcançar a sua morte é um dos actos mais importantes da vida”.
Das muitas páginas que poderiam ser citadas, escolho a última, que é de um escritor de raça e que não pode deixar de virar do avesso todas as almas de qualidade, de onde quer que elas venham: “Sou do país das árvores e da floresta, do carvalho e do javali, da vinha e dos telhados inclinados, das canções de gesta e dos contos de fadas, do solstício de Inverno e das festas de São João no Verão, das crianças loiras e dos olhares claros, da acção obstinada e dos sonhos loucos, das conquistas e da sabedoria. Sou do país onde fazemos o que devemos porque o devemos em primeiro lugar a nós próprios.”
Leiamos este livro, ofereçamo-lo às jovens almas ardentes. E saudemos Pierre-Guillaume de Roux, o editor, e Bruno de Cessole, o prefaciador, pela sua fidelidade a um amigo desaparecido.
Testemunho sobre uma juventude de tempestade, tratado estóico de saber-viver, reflexão sobre a acção, meditação sobre o trágico, “Le Cœur rebelle” ficará e encontrará novos leitores, porque este livro extraordinário ilustra o primado do estilo sobre as ideias, do instinto vital sobre as abstracções. “Le Cœur rebelle”, ou o suor e o sangue transmutados em espírito.

Christopher Gérard

Dominique Venner, Le Cœur rebelle, édition augmentée et préfacée par Bruno de Cessole, Pierre-Guillaume de Roux, 22€.



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Três perguntas a Dominique Venner
sobre “Le Cœur rebelle”

Christopher Gérard – Em “Le Cœur rebelle” evoca com simpatia “um jovem intolerante que levava em si mesmo como um odor de tempestade”: você mesmo no tempo dos combates militares na Argélia e, depois, políticos em França. Quem era então este jovem Kshatriya, donde vinha, quem eram os seus mestres, os seus autores predilectos?

Dominique Venner – É aqui que encontramos uma alusão ao “gerfaut” da sua primeira pergunta, recordação de uma época estimulante e perigosa onde o jovem que eu era acreditava poder inverter um destino contrário através de uma violência assumida. Isto pode parecer extremamente presunçoso, mas, à época, eu não reconhecia qualquer mestre. É claro, eu ia procurar estímulos e receitas no “Que fazer?”, de Lenine, ou em “Os Reprovados”, de Ernst von Salomon. Acrescento que as leituras infantis contribuíram para forjar em mim uma certa visão do mundo que no final foi muito pouco desmentida. Em conjunto, citarei “Éducation et discipline militaire chez les Anciens” [“Educação e Disciplina Militar nos Antigos”, de Marcel Poullin (1883)], pequeno livro sobre Esparta que vinha do meu avô materno, um antigo oficial, “A Lenda da Águia” de Georges d’Esparbès, “O Bando dos Ayacks” de Jean-Louis Foncine, “O Apelo da Floresta” de Jack London, enquanto não lia mais tarde o admirável “Martin Eden”. Tratavam-se de livros formadores dos meus dez ou doze anos. Mais tarde, por volta dos vinte ou vinte e cinco anos, tinha passado naturalmente a outras leituras, mas as livrarias eram então mal fornecidas. Era uma época de penúria intelectual da qual não temos ideia hoje. A biblioteca de um jovem activista, mesmo de um devorador de livros, era magra. Na minha, por entre obras históricas, figuravam “Reflexões sobre a Violência” de Georges Sorel, “Os Conquistadores” de Malraux, “Genealogia da Moral” de Nietzsche, “Serviço Inútil” de Montherland, ou ainda “O Romantismo Fascista” de Paul Sérant, revelação dos anos 60. Vemos que não ia muito longe. Mas se as minhas ideias eram curtas, os meus instintos eram profundos. Muito cedo, enquanto ainda era soldado, senti que a guerra da Argélia era uma coisa diferente do que se dizia ou do que pensavam os ingénuos defensores da “Argélia francesa”. Percebi que se tratava de um combate identitário para os europeus porque na Argélia estavam ameaçados na sua própria existência por um adversário étnico. Senti igualmente que lá defendíamos – muito mal – as fronteiras meridionais da Europa. Contra as invasões, as fronteiras defendem-se sempre para além dos mares ou dos rios.


Neste livro, que é um pouco a sua autobiografia, escreve: “Sou do país das árvores e da floresta, do carvalho e do javali, da vinha e dos telhados inclinados, das canções de gesta e dos contos de fadas, do solstício de Inverno e das festas de São João no Verão.” Que estranho paroquiano é você, afinal?

Para dizer as coisas de maneira breve, sou demasiado conscientemente europeu para em nada me sentir filho de Abraão ou de Moisés, ao mesmo tempo que me sinto plenamente o de Homero, de Epicteto ou da Távola Redonda. Isto significa que procuro as minhas referências em mim, o mais próximo das minhas origens e não num lugar longínquo que me é perfeitamente estranho. O santuário onde me vou recolher não é o deserto, mas a floresta profunda e misteriosa das minhas origens. O meu livro sagrado não é a “Bíblia”, mas a “Ilíada”, poema fundador da psique ocidental, que atravessou miraculosa e vitoriosamente os tempos. Um poema que vai às mesmas fontes que as lendas célticas e germânicas de que manifesta a espiritualidade, se nos dermos ao trabalho de o decifrar. No entanto, não esqueço os séculos cristãos. A catedral de Chartres faz parte do meu universo da mesma forma que Stonehenge ou o Partenon. Esta é a herança que é necessário assumir. A História dos europeus não é simples. Depois de milénios de religião indígena, o cristianismo foi-nos imposto por uma série de acidentes históricos. Mas foi ele próprio em parte transformado, “barbarizado” pelos nossos antepassados, os bárbaros, os francos e outros. Foi amiúde vivido como uma transposição dos cultos antigos. Atrás dos santos, continuou-se a celebrar os deuses familiares sem se fazer grandes perguntas. E nos mosteiros recopiavam-se os textos antigos sem necessariamente os censurar. Esta permanência é ainda verdadeira hoje em dia, mas sob outras formas, apesar dos esforços da predicação bíblica. Parece-me necessário ter em conta a evolução dos tradicionalistas que constituem tantas vezes ilhas salutares, opondo ao caos ambiente as suas famílias robustas, as suas crianças numerosas e o seu agrupamento de jovens em boa forma. A perenidade da família e da pátria que eles reclamam, a disciplina na educação, a firmeza nas provas não tem evidentemente nada de especificamente cristão. São réstias da herança romana e estóica que a Igreja mais ou menos assumiu até ao início do século XX. Inversamente, o individualismo, o cosmopolitismo actual, o culpabilismo são heranças laicizadas do cristianismo, como o antropocentrismo extremo e a dessacralização da Natureza nos quais eu vejo a fonte de uma modernidade faustiana enlouquecida de cujos efeitos pagaremos um elevado preço.

Em “Le Cœur rebelle” diz também: “Os dragões são vulneráveis e mortais. Os heróis e os deuses podem sempre regressar. Não há fatalidade a não ser no espírito dos homens.” Pensamos em Jünger, que conheceu, que via em acção Titãs e Deuses…

Matar em si próprio as tentações fatalistas é um exercício que não tolera descanso. Quanto ao resto, deixemos às imagens o seu mistério e as suas múltiplas radiações, sem as apagar com uma interpretação racional. O dragão pertence desde a eternidade ao imaginário ocidental. Ele simboliza umas vezes as forças telúricas, outras as forças malignas. Foi pela luta vitoriosa contra um monstro que Hércules, Siegfried ou Teseu acederam ao estatuto de herói. À falta de heróis, não é difícil reconhecer na nossa época a presença de diversos monstros, que eu não creio que sejam invencíveis mesmo que o pareçam.

Entrevista feita por Christopher Gérard para a revista “Antaios”, em 2001.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A um Amigo que partiu

José Rebordão Esteves Pinto (1932 - 2017)
Volto a escrever n’O DIABO com tristeza e saudade. Regresso à que foi para mim uma segunda casa para registar no papel e gravar na memória do nosso jornal a importância de um Amigo que partiu. Aos leitores é escusado repetir o que o esforço do José Esteves Pinto, como ele assinava, representou num país onde a Imprensa, os partidos e até as pessoas se tornaram cada vez mais formatados, cópias mal feitas de uma cópia, sem pensamento crítico, valores ou vontade – meros repetidores da norma vigente, do que é “politicamente correcto”, desprovidos de alma.

O que me interessa contar é como o Rebordão, como os Amigos lhe chamavam, me marcou, desde a primeira vez que o li até à nossa última conversa, passando pelo dia em que me confiou a direcção de O DIABO.

Como escrevi no meu primeiro editorial como director, no agora longínquo ano de 2011, este foi um jornal com o qual, literalmente, cresci. Lia-o avidamente e saltava sempre da primeira para a última página, para ler as “Coisas d’O Diabo”. Eram comentários mordazes e acutilantes, mas também ácidos e por vezes até corrosivos. Quem diria que um dia seria eu a escrevê-los e que, mesmo com os elogios de tantos leitores, só me satisfiz com a aprovação do “mestre”, como bom aprendiz que fora?

Lera-o e conhecia a sua mitologia, mas foi num jantar com amigos que pela primeira vez o ouvi e ri com as suas histórias como se nos conhecêssemos desde sempre... Estou seguro de que foi essa amizade franca, característica dos combatentes que se reconhecem, que o fez – sem hesitar, pelo que me garantiram – confiar-me a hercúlea tarefa de continuar o nosso jornal. Acompanhou o meu trabalho à distância e sem interferir, como só consegue fazer quem não tem dúvidas na sua escolha.

A última vez que o vi foi em tribunal, em mais um processo contra o jornal, e foi arrebatadora a forma como, à medida que o seu tom de voz aumentava e as suas palavras incendiavam os corações de um lado e chamuscavam os argumentos do outro, mostrou que o seu fogo interior não havia perdido o fulgor.

Quando saí de O DIABO, compreendeu. E continuámos a falar regularmente. Foi um período de amizade amadurecida. Entendi finalmente porque é que nunca cedera a dar-me uma entrevista, porque há histórias que são para alguns e não para os demais, e recordei com ele as nossas leituras e algumas aventuras.

Num dos livros de que tanto gostávamos, “Como o tempo passa...”, Brasillach escreveu que a forma mais bela da coragem é a lucidez. Palavras sábias que me recordam um camarada.
Por tudo isto e por sentimentos que nem as palavras conseguem expressar, a notícia da sua morte sugou-me as forças e deixou-me cabisbaixo. Mas olhei para cima e pensei que, onde quer que esteja, está a olhar para ‘isto’ e a rir-se desta cambada com que nunca se identificou e sempre denunciou. Foi essa certeza que me fez respirar fundo e dar uma gargalhada – com ele. Adeus, meu Amigo!

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 28 de julho de 2017

O regresso dos agentes espácio-temporais


Valérian e Laureline foram mais uns daqueles heróis de Banda Desenhada que preencheram o imaginário da minha adolescência. A propósito da sua recente transmutação em filme, o «Público» teve a óptima ideia de republicar a colecção integral em álbuns duplos. É pena que não tenha optado pela edição em capa dura, mas está de parabéns por continuar a não ceder à crescente imposição do famigerado Acordo Ortográfico. Assim, podemos reler as aventuras da mais famosa dupla de agentes espácio-temporais tal e qual como quando éramos jovens sonhadores.

Relativamente ao filme, realizado por Luc Besson e que tenta levar estes heróis (ou uma versão deles) para o mercado do outro lado do Atlântico, tenho as maiores reservas, mas ainda assim tenciono vê-lo. O Eurico de Barros, que é um apreciador da BD como eu, escreveu que mesmo com reservas, "o filme é muito mais potável do que um apreciador da série de BD desde a primeira hora (como é o autor destas linhas) poderia temer, sobressaindo clara e positivamente de entre tudo o que tem sido feito nesta ingrata área das adaptações de BD franco-belga ao cinema." Veremos...

sábado, 15 de julho de 2017

Evocação de Carl Schmitt



Alain de Benoist convidou Alexandre Franco de Sá e Aristide Leucate para uma emissão de "Les Idées à l'endroit", na TV Libertés, sobre Carl Schmitt. Nesta óptima evocação do jurista, filósofo e politólogo alemão, que continua tão desconhecido entre nós, o único defeito foi a curta duração do programa... A (re)ver!

domingo, 9 de julho de 2017

Um Verão com Homero


Há uma semana, o escritor-viajante Sylvain Tesson iniciou uma excelente série de emissões radiofónicas, aos sábados na France Inter, sob o tema "Um Verão com Homero". Os dois programas já transmitidos estão disponíveis online e quem ouvir este óptimo regresso aos clássicos não vai querer perder o resto da série.

A propósito da Ilíada, diz Tesson: «Um poema, surgido da memória, explode na eternidade. Como explicar que uma narrativa com mais de 2500 anos, brotado do mar eterno, soa aos nossos ouvidos com tanta juventude, com um borbulhar tão vivaz que rebenta numa encosta de mármore. Porque é que estes versos parecessem ter sido escritos esta manhã por um irmão imortal muito velho para nos ensinar de que serão feitos os amanhãs?» Irresistível...

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Philippe Conrad fala sobre D. Sebastião



Philippe Conrad, director de "La Nouvelle Revue d'Histoire", fala sobre D. Sebastião, a Batalha de Alcácer-Quibir, os falsos D. Sebastião, a crise sucessória, o sebastianismo e a Restauração da Independência, na mais recente emissão de "Passé Présent", o programa da TV Libertés dedicado à História.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A terra devastada é a nossa...


A terra devastada é a nossa. Não é um lugar longínquo que mora na televisão.
A gente massacrada é a nossa. Não é um punhado de velhotes descartáveis.
A terra devastada é a nossa. Pela incúria dos que tanto falam e nada fazem.
A gente massacrada é a nossa. Assassinada por irresponsáveis sem absolvição.
A terra devastada é a nossa. Maltratada, mas com possibilidades inimagináveis.
A gente massacrada é a nossa. Raízes humanas de ermos onde já poucos vivem.
É nossa a terra devastada. Que nem desta vez nos servirá de lição.
É nossa a gente massacrada. Filhos do País que afinal são dispensáveis.
É nossa a terra devastada. E nada mudará, todos o sabem.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

A revista "Éléments" chega à televisão

A revista francesa "Éléments", que amiúde aconselho nesta casa, tem agora uma emissão na TV Libertés para anunciar cada edição e debater os respectivos temas com alguns dos seus autores. A não perder!

domingo, 7 de maio de 2017

Submissão


No dia da vitória de Emmanuel Macron, é de recordar uma passagem de "Submissão", o romance assustadoramente premonitório de Michel Houellebecq:

"A progressão da extrema-direita tornara as coisas um pouco mais interessantes ao trazer para os debates o esquecido calafrio do fascismo; mas só em 2017 é que as coisas começaram verdadeiramente a mexer, com a segunda volta das presidenciais. Siderada, a imprensa internacional assistiu então ao vergonhoso espectáculo, embora aritmeticamente inelutável, da reeleição de um presidente de esquerda num país cada vez mais abertamente de direita. Poucas semanas depois do escrutínio eleitoral, espalhou-se em todo o país uma atmosfera estranha, opressiva, uma espécie de desespero sufocante, profundo, embora aqui e ali atravessado por assomos insurreccionais. Nessa altura, muitos foram os que optaram pelo exílio. Um mês depois dos resultados finais, Mohammed Ben Abbes anunciou a criação da Fraternidade Muçulmana."

sexta-feira, 5 de maio de 2017

A Direita francesa, as eleições presidenciais e Marine Le Pen


Há dois anos entrevistei o Bruno Garschagen, professor de Teoria Política, autor e tradutor, a propósito do seu livro “Pare de acreditar no Governo. Por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado”. Apesar das nossas diferenças, mantivemos o contacto, a amizade e o salutar debate de ideias. Desta vez, a propósito das eleições presidenciais francesas, os papéis inverteram-se e fui eu o entrevistado. Aqui fica a ligação para a entrevista que dei ontem em directo, uma óptima experiência que, assim espero, seja útil à compreensão do que está em jogo no próximo dia 7 de Maio. 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A teoria que dá a vitória a Marine Le Pen

Marine Le Pen

Serge Galam, físico e investigador em Ciência Política no CEVIPOF previu a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais nos EUA e a derrota de Alain Juppé nas primárias da Direita francesa. Agora, segundo noticia o "Le Point" e desenvolve a revista "Valeurs Actuelles", diz que há uma possibilidade de Marine Le Pen chegar ao Eliseu para a qual apresenta uma base científica.

Ao contrário do que prevêem as sondagens, Marine pode vencer graças ao que Serge Galam chama a "abstenção diferenciada". Segundo o investigador, Le Pen não consegue passar a barreira dos 50%, mas pode beneficiar de uma fraca mobilização do eleitorado de Macron.

Traduzido em números, Galam parte de uma sondagem que dá 58% a Macron e 42% a Marine para considerar que, neste caso, se 90% dos eleitores de Marine votarem na segunda volta e apenas 65% dos eleitores que declararam o seu apoio a Macron o fizerem, Marine Le Pen seria eleita com 50,07% dos votos.

É uma hipótese remota, claro, mas temos visto vários casos em que o inesperado aconteceu...

domingo, 30 de abril de 2017

Macron, o candidato dos 'media'

Macron, o candidato dos media

Ainda as sondagens não apontavam Emmanuel Macron como candidato capaz de chegar à segunda volta das eleições presidenciais em França, já a imprensa dita "de referência" fazia um verdadeiro exercício de propaganda a este ex-ministro de Hollande, que de repente se tornara uma "sensação", uma "novidade", uma coqueluche mediática.

Não será por isso de estranhar que os media não se inibiram de manifestar o seu apoio expresso a Macron, como se tornaram engrenagens essenciais na sua máquina propagandística.

A cobertura da noite eleitoral da primeira volta é um exemplo paradigmático e foi muitíssimo bem desmontada por Michel Geoffroy numa exaustiva análise, cuja leitura aconselho. O ensaísta francês, colaborador da Fondation Polémia, conclui que nessa noite os media instalaram Macron como o futuro Presidente da República francesa.

Em Portugal, como no resto do mundo ocidental, a postura foi fundamentalmente a mesma. No entanto, houve um exemplo raro e louvável que é se impõe referir. Felisbela Lopes, professora universitária que lecciona Comunicação Social da Universidade do Minho, escreveu um artigo no "Jornal de Notícias" cujo título diz tudo: "Os média escolhem Macron". Nesse texto,  confessa a sua "repulsa a sofisticados processos de produção noticiosa que, sob o manto da imparcialidade e da precisão, procuram passar mensagens subliminares que orientem comportamentos. Por norma, os cidadãos percebem bem essa manipulação e tendem a reagir em sentido contrário daquele pretendido. Nestas eleições francesas, seria melhor noticiar com rigor o que os dois candidatos fazem e desconstruir exaustivamente as respetivas propostas, circunscrevendo a defesa de cada um aos espaços de opinião". É a defesa de um jornalismo ideal, dirão alguns, de uma objectividade impossível, dirão outros, mas não deixa de ser uma chamada de atenção muito importante, em especial neste tempo em que os media do sistema tanto se esforçam por recuperar uma credibilidade que dificilmente voltarão a ter.

segunda-feira, 10 de abril de 2017