quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Os livros enforcados

Numa ida a um colóquio que teve lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, saltou-me à vista uma das “decorações” do átrio de entrada da Biblioteca. Olhando para o tecto, pude ver – com alguma estupefacção – vários livros artisticamente suspensos por fios de ‘nylon’.

Qual o significado desta “instalação”, como provavelmente lhe chamam os entendidos de serviço? Ainda por cima, porque está num local de promoção da cultura.

Seja qual for a intenção do “artista”, comentei a um dos oradores nesse colóquio que, para mim, aqueles eram livros enforcados. Apesar de ele ironizar, dizendo que um dos “condenados” era o “Manifesto Comunista”, não me conformei com o que vi.

Bibliófilo confesso, para além de leitor ávido, um livro para mim não vale apenas pelo seu conteúdo, mas também enquanto objecto. Não compreendo, por isso, os que usam livros como decoração e não faço distinção entre estes “enforcados” e os livros a metro comprados para enfeitar estantes. São manifestações de ignorância e desrespeito.

Não deixei de fazer um paralelo com a atitude generalizada em relação aos livros hoje em dia no nosso país. Apesar de se venderem mais agora do que alguma vez no passado, tal não significa que sejam lidos e que a cultura literária se tenha elevado.

Podemos ver isso ao entrar numa livraria actual, que é mais uma boutique de livros, preocupada em expor e vender os títulos da moda – cada vez mais iguais uns aos outros –, onde é difícil comprar o que realmente queremos. Esta uniformização deve-se, também, ao monopólio dos grandes grupos editoriais, movidos apenas pelo lucro fácil e imediato.

É exactamente em períodos de crise que não nos podemos dar ao luxo de desprezar a cultura. Precisamos de mais livros, mais livres.

Editorial dasta semana de «O Diabo».

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