quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Vilanagem


"Restava-nos apenas a arrogância e a crueldade, de modo que, quando víamos o apreço que todos tínhamos pelas nossas pessoas individuais, quando víamos a violência de costumes e o despeso pelas outras províncias e nações, percebia-se que os espanhóis fossem, com razão, odiados por toda a Europa e meio mundo."

Arturo Pérez-Reverte
in "O Ouro do Rei"

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Voz escrita


«Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale: o mais é homens e mulheres, amores supostos e vaidades factícias, subterfúgios da digestão e do esquecimento, gentes remexendo-se, como bichos quando se levanta uma pedra, sob o grande pedregulho abstracto do céu azul sem sentido.»

in "Livro do Desassossego", por Bernardo Soares.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

O culto dos 'chefs'


Há um texto genial de Arturo Pérez-Reverte sobre o pós-modernismo gastronómico que se tornou uma referência para mim e se chama, muito apropriadamente, "Desconstruyendo pinchos de tortilla". É uma (re)leitura salutar nestes tempos em que nos querem enfiar goela abaixo, literalmente, as mixórdias mais escabrosas, sob o manto invisível da chamada "cozinha de autor".

Um dos que diz, sem papas (gourmet) na língua, que "o chef vai nu" é o meu caro Amigo Bruno Oliveira Santos, que não vai em cantigas, muito menos em cozinhados da moda. Por isso, enquanto a malta anda deslumbrada com as estrelas pneumáticas da gastronomia, escreve: "Não aprecio comida de autor, com os seus experimentalismos, texturas, fusões e condimentos despachados pela FedEx para o tacho. Gosto de comida portuguesa, do nosso peixe, da vitela, do leitão, do cabrito, dos molhos dos assados e de outros temperos que agoniam os senhores da Organização Mundial de Saúde e põem os cabelos em pé aos comissários europeus. Infelizmente, damos passos seguros em direcção à gastronomia molecular. Mais anos menos ano, os nossos cozinheiros, além de estrelas Michelin, hão-de acumular Nobéis da Física. Português rude e antigo, de trato difícil, pergunto sempre de mim para mim ao contemplar estes chefs modernos de avental, à volta de emulsões, copinhos e pipetas: se gostam tanto de cozinhar, por que não aprendem?"

Dir-me-ão os do costume que não passa de uma posição "retrógrada" ou "reaccionária"... Pouco importa. A avalanche de concursos televisivos de cozinha, verdadeiras correrias em pistas de obstáculos que nada têm que ver com a arte culinária, mostram bem ao ponto a que se chegou.

Destes espectáculos de ilusionismo acelerado à elevação dos chefs ao estatuto de "celebridades" foi um instante. O culto do Chefe é algo impensável nestes tempos politicamente correctos, mas o culto dos chefs já é bom e recomenda-se. Tornou-se mesmo o prato do dia!

Que é feito dos cozinheiros?...

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Thorgal e a saga dos vikings


A revista francesa "Historia" publicou um excelente número especial sobre Thorgal, com destaque para as influências dos vikings e da mitologia nórdica nesta óptima saga da Sétima Arte. A não perder!

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O selo de Ernst Jünger


Há tantos anos que o meu saudoso Amigo Roberto de Moraes me falou no selo de Jünger, que tanto o irritou e sobre o qual escreveu na revista "Futuro Presente", em 1999. Agora, a minha mulher fez-me uma óptima surpresa e ofereceu-mo. Muito obrigado!

Aqui fica o texto para memória futura:

O selo de Jünger

A figura de Ernst Jünger é incontornável. Por várias vezes, só para falar no fim da longa vda do escritor, reuniu à sua volta o então Presidente francês, o socialista Mitterand, e o chanceler alemão ao tempo, o cristão-democrata Helmut Kohl, numa simbiose de significado histórico e cultural.
A consagração, no seu centenário, e, sobretudo, no seu funeral, congregou forças vivas que há muito não se viam à luz do dia, juntas. Foi uma grande figura, actor e testemunha, interventor e pensador, de um século de história, não só da Alemanha, como da Europa. A guerra o forjou. Nela se fez homem. Essa a matriz, essa a grande iniciação que lhe permitiu alcançar outras esferas da maneira como o fez. Está bem claro em "A Guerra como Experiência Interior" e, também, nas "Tempestades de Aço". Há que lê-lo. É pena que neste belo selo agora lançado na República Federal da Alemanha não se tenha atendido a esta marca. Assim, face a uma história de dominante militar, olhada como comprometedora e incómoda, preferiu-se prudentemente a imagem etérea do aluno de liceu de 1913, com o seu colarinho médio burguês, à sóbria gola cinzenta encimando a cruz "Pour le Mérite", do soldado e guerreiro de 1918.
Contrária ao cunho aristocrático da sua vida e da sua obra, traindo a matriz, a imagem de fundo torna-se anódina; pelo mesmo preço também podiam ter mostrado o bebé de cueiros de três meses, ou então o rapazinho de sete anos, de fato à maruja, como era costume no seu meio, naquela época. Apesar disto, fica-nos esta imagem indelével, em primeiro plano, granítica e esfíngica, sardónica e voluntariosa, a desafiar o tempo, a fitar o século XXI. E estou em crer que não são apenas os Titãs que ele está a ver.

Roberto de Moraes
in "Futuro Presente" n.º 49 (Primavera de 1999)

domingo, 13 de novembro de 2016

La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 87


O último número de «La Nouvelle Revue d'Histoire», revista de referência que habitualmente recomendo e se vende nos quiosques portugueses, tem como tema central a "indomável Hungria" e num óptimo dossier podemos ler artigos sobre a História húngara, das origens aos nossos dias, passando pela revolução de 1848 e a revolta de 1956 contra o comunismo, bem como as entrevistas com o historiador Geza Palffy, sobre a Santa Coroa da Hungria, ou com o historiador Pal Fodor, sobre a Hungria face aos turcos. Nota especial para o artigo de Jean-François Gautier, "A música é a alma de um povo" e um destaque natural para a entrevista sobre o Outubro de 1956 com o anterior director da revista, Dominique Venner, publicada originalmente em 2010 na revista húngara "Magyar Jelen", e a entrevista com o actual primeiro-ministro, Viktor Orbán. No editorial sobre o espírito de resistência e resiliência húngaro, Philippe Conrad conclui que "o segredo desta resistência reside talvez simplesmente no facto de os húngaros serem os herdeiros de uma longa e rica História da qual conservaram a memória, fonte indispensável para a manutenção da sua identidade, a melhor das defesas contra o niveamente mortífero engendrado pelo mundanismo liberal".

Para além do dossier, destaque para a entrevista com Jean-François Gautier, que faz o "diagnóstico para uma Europa em crise", o artigo sobre a depuração na Haute-Vienne no Verão de 1944, de Xavier Laroudie, e o retrato de Sulla feito por Emma Demester, ao qual se segue um questionário para testarmos os nossos conhecimentos, bem como as secções habituais.